segunda-feira, 6 de agosto de 2012

BOAS REFLEXÕES SOBRE A RELAÇAO DOCENCIA E DISCENCIA, CONSTITUIÇAO SUBJETIVA E PROFISSIONAL DO PROFESSOR DO SECULO XXI

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Professor Mediador: possíveis aproximações entre a matriz Histórico Cultural e a Teoria da relaçao Dialógica

A formação docente em debate: aspectos, fatores e implicaçoes da reflexão, da analise, da pesquisa e estudo constante na qualidade da relação ensino e aprendizagem


Ensino de Arte Contemporâneo

Professor Mediador: possíveis aproximações entre a matriz Histórico Cultural e a Teoria da relaçao Dialógica



A TEORIA DA RELAÇÃO DIALÓGICA DE PAULO FREIRE E O PARADIGMA DA MATRIZ HISTÓRICO-CULTURAL

LOURIDES APARECIDA FRANCISCONI



 A Arte - Educação mediando a dialogicidade como prática da substantividade humana



RESUMO: Não nascemos humanos, nos tornamos. Somos construções sociais originadas em contextos culturais específicos. Nossa identidade e autonomia, nossa subjetividade e objetividade são exercícios contínuos das interações sócio-afetivas. Exercer nossa humanidade plenamente é condição premente para o pronunciamento do mundo, via práticas dialógicas e politizadas, extraindo dele e seus objetos plausíveis e possíveis de aprendizagem em nível sócio-natural, afetivo-cognitivo e histórico-cultural, as variáveis necessárias para efetivarmos nossa condição de corresponsáveis em nossa própria constituição humanizada. Esta, a ser vivenciada efetivamente na observância e prática de princípios educativos, políticos, éticos e estéticos, que suscitarão as bases para a construção de nossa autonomia e identidade, assim como a nossa inserção e qualificaçao cultural.



 PALAVRAS-CHAVES: Mediação. Diálogo. Cultura. Arte.



O objetivo deste trabalho, ainda que de modo sintético, consiste em  aproximar o pensamento de Paulo Freire (1921 -1997) que demarca a dialogicidade humana como fonte epistêmica e ontológica de humanização do humano aos postulados da matriz Histórico–Cultural, representada pelos pensamentos de Lev Seminovitch Vygotsky (1896-1934)  e Reuven Feuerstein (1921 -...) cuja ênfase recai na mediação como fator de excelência para a construção humana a ocorrer de forma ativa e efetiva nas relações sócio-afetivas e no embate consubstanciado entre a espécie humana e o mundo. Vygotsky (1998, 1999, 2001) e Feuerstein (1998) são categóricos ao afirmarem que fora da cultura e da afetividade, ou seja, fora das interações sociais não há possibilidade de constituição e da construção humana humanizada.

Em Freire (1987, 1998, 1996) aprendemos que as interações homem-mundo são mecanismos de efetivação dos processos investigativos que possibilitam o entendimento desta relação como principio fundamental e variável determinante de práticas histórico-culturais, ou da capacidade de reconhecer-se como constituído sujeito humano de fato, direitos e deveres; corresponsável por sua construção e do mundo/contexto em que vive.

Portanto, do entendimento e da compreensão de posturas e ações efetivas e ativas que dimensionam o homem em seus aspectos sócio-afetivos e cognitivos, assim como políticos, econômicos e educativos, conferindo-lhe sentido em âmbito pessoal, não arbitrário, de sujeito histórico. Denotando sua liberdade para pensar e intervir de forma dialógica no pronunciamento de sua relação com os pares e com o mundo.

Nos ensina ele que os homens

ao terem consciência de sua atividade e do mundo em que estão, ao aturarem em função de finalidades que propõem e se propõem, ao terem o ponto de decisão da sua busca em si e em suas relações com o mundo, e com os outros, ao impregnarem o mundo de sua presença criadora através da transformação que realizam nele, na medida em que dele podem separar-se e separando-se, podem com ele ficar, os homens, ao contrário do animal, não somente vivem, mas existem, e sua existência é histórica (Freire, 1987, p.  89).



 Para Freire (1987), somos seres históricos, éticos, estéticos, políticos e transgressores, pois transformadores. A ética caracteriza-se por práxis essencial no vislumbre do Ser Ontológico em seu devir e sua natureza sócio-histórica. É o SER PRESENÇA NO MUNDO, que, à partir das interações e das inter-relações com tudo o que circunscreve o mundo, reconhece-se presença e compreende-se como agente interventor e transformador; que sente, pensa, sonha e intervém ao mesmo tempo em que reconhece e identifica o outro também como presença potencial em dimensão objetiva e subjetiva.

Para Vygotsky (1998,1999, 2001), os fundamentos psicológicos da psiquê humana, ou seja, as características fundamentais - formas comportamentais de percepção, recepção, elaboração, reação e transformação à realidade - que distingue o homem das outras espécies, são construídas nas interações mediadas pelos pares e pela cultura que fornecem os instrumentos tecnológicos e psicológicos necessários as aprendizagens e ações sobre o mundo. Portanto, originadas socialmente e datadas historicamente. O desenvolvimento e a aprendizagem são processos imbricados que só ocorre qualitativamente via mediação com o outro social e com os signos culturais, instrumentos tecnológicos e simbólicos criados/construídos pela força motriz – atividade/trabalho - do homem em seu processo onto e filogenético. A principal incidência da mediação é na zona de desenvolvimento proximal, ou o nível de aprendizagem real e potencial; determinado nível de complexidade e que envolve intervir entre aquilo que o sujeito já é capaz de realizar e aquilo em que ele precisa de auxilio. Os estímulos interpretados e a linguagem são os principais instrumentos de ação no processo de mediação. Para o pensamento vygotskyano, a Arte, enquanto linguagem estética e sistema simbólico de apropriação e representação significativa da relação homem/mundo, medeia a construção humana, pois, educa o homem sensivelmente e potencializa sua capacidade criativa e interventora.

Na mesma linha de raciocínio, Reuven Feuerstein (1998 apud MEIER; GARCIA, 2010; GOMES, 2002) descortina as possibilidades de modificação da capacidade cognitiva humana. Baseado nos estudos piagetianos da construção de esquemas e modificabilidade estrutural biológica a ocorrer por meio das interações ativas organismo e ambiente, assim como dos pressupostos vygotskyanos Feuerstein elabora sua proposta com critérios universais de mediação, tais como  a intencionalidade, a reciprocidade, a transcendência e o significado, a constituírem essencialidade nas relações socio-afetivas fundamentais para a constituição humana  que se consolida nas heranças culturais apropriadas, transformadas e reelaboradas em experiências de aprendizagem mediadas.  As EAMs, por meio do sistema signicos e simbólicos da cultura de origem, dotam o sujeito com as ferramentas e as estratégias necessárias para a efetivação do processo de aprender, desde que ocorram intencional e reciprocamente. As ferramentas mais importantes são a linguagem e a capacidade de criar inter-relações. 

Para Feuerstein (1998), todos somos capazes de aprender e de ensinar. Assim, em correlação ao objeto/problema deste estudo, tomamos como dado concreto a definição de Arte enquanto a capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria ou o objeto do conhecimento, entendido aqui como a realidade contextual.  A Arte, de acordo ao pensamento feuerstiano, e, enquanto prática efetiva de percepção e expressão criativa, de materialização de sentidos na relação humano e mundo, tanto quanto a cultura e a linguagem, caracteriza-se como mediadora por excelência na constituição humana em suas dimensões relacionais, afetivas e cognitivas e de consolidação de seu pronunciamento político do mundo.

Por sua vez, Paulo Freire nos orienta quanto às formas de uma práxis de vida, que a partir da linguagem e da cultura - esta entendida como criação humana que re-cria o homem – se apresenta como mediadora propicia para a construção autônoma, ética e estética e da conscientização politizada dos sujeitos da relação pedagógica. Afirma ele que esta construção ocorre por meio das leituras de mundo, da palavra-mundo e na ambiência da mutualidade dialógica e da parceria responsável, entre docentes e discentes, na construção de suas identidades culturais a ser formada e construída, a partir da conscientização de si e da diferenciação do outro, confere aos sujeitos culturais sua singularidade e, ao mesmo tempo, os torna parte conexa do todo, pois produtores de signos culturais em interação constante.

Na concepção freireana da linguagem como signo primordial de mediação na estruturação da ação pensante e sensível e na compreensão transformadora do mundo e seus objetos, entendemos haver conferencia á Arte de signo relevante que, por possuir elementos simbólicos próprios - também denominados de linguagens estéticas - medeiam as nossas leituras de mundo, alimentando nossa imaginação com a criatividade necessária para a materialização de sentimentos e pensamentos em novas formas de apropriação e recriação de signos simbólicos vários, de nós mesmos e do mundo, consolidando de forma autônoma nossa identidade cultural.

 Neste sentido, as premissas Freireanas estabelecem as proposições para um processo educacional que priorize a humanização do humano em um contexto relacional vinculado a uma existência que extrapola o espaço convencional das relações imediatas e que tem no diálogo a base para um desenvolvimento e aprendizagem de qualidade. A cada um dos sujeitos da relação ensino e aprendizagem é assegurado o direito de ter voz e vez, em um processo que permita e priorize o saber ouvir e falar, como premissa de uma convivência equilibrada com a realidade sócio-natural e saber expressar-se, via capacidade imaginativa e criativa sua impressão do mundo como condição de pronunciamento do mesmo. A capacidade retórica argumentativa, em bases ética, estética e política, seria o meio estratégico para o ‘pensar bem’ e para o efetivo exercício da cidadania. Este enfoque vislumbra um processo formativo onde o ‘desenvolvimento’ humano seja pautado por relações dialógicas interativas e ações centradas na ética politizada. Em Freire a ética e a estética se consolidam como ações imbricadas, anunciando a boniteza da ação/intervenção, ou seja, demarca o comportamental humano em face de sua realidade percebida e compreendida de forma contextual e dinâmica-movente.

A cultura em Freire é valorizada como mediadora na construção de uma identidade própria/cultural do sujeito aprendente que, ao mesmo tempo em que, a ela se reporta em busca de subsídios interativos e ativos, pois, produto de seu grupo social, a transforma e se transforma, produzindo novos modos relacionais e produtores de uma cultura que enfatiza e permite este movimento. Movimento este que, por ser dialógico e dialético, possibilita a construção de sua identidade cultural, que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Freire enfatiza que:

Ser dialógico é vivenciar o dialogo, é não invadir, é não manipular, é não sloganizar; o diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o pronunciam, isto é, o transformam e, transformando-o, o humanizam. (FREIRE, 1976, p. 43).

Segundo estas premissas, os questionamentos são os meios estratégicos que o sujeito aprendente utiliza para conhecer  a si mesmo, ao outro, ao mundo e suas coisas  e agir no mundo. Ao se efetivar perguntas exigem-se respostas que, num processo dialógico são compartilhadas, analisadas, discutidas e revelam a inquietação do ser que pergunta diante do objeto ou da realidade que se pretende desvendar, desvelar e conhecer para intervir, denotando a consubstantividade humana. 

Para Freire, assim como para Vygotsky e Feuerstein é fundamental que diante de uma indagação, de uma pergunta sobre um determinado assunto, a criança/aluno (a) tenha como resposta uma explicação ‘do e sobre’ o mesmo, que possibilite o estabelecimento de inter-relações de “forma dinâmica, forte e viva entre a palavra-ação-reflexão-ação”. (FREIRE, 1986, p. 49). O diálogo como base da relação ensino-aprendizagem focado na prática mediadora valoriza todos os protagonistas da mesma. Ao docente permite o ‘olhar’ critico e a devida reflexão sobre a ação cotidiana, bem como sobre a valorização dos saberes construídos e constituídos, de modo formal e informal, possibilitando as incursões interpretativas, seja em linguagem discursiva, gestual, pictográfica ou pictórica, entre a criança/aluno (a), o objeto de conhecimento e a realidade. Propiciando possíveis descobertas, investigações e pesquisas para que os possíveis objetos do saber possam ser conhecidos, apreendidos e ressignificados.

CONSIDERAÇÕES

            Diante do exposto, entendemos que nas possíveis aproximações entre Paulo Freire, Lev Seminovitch Vygotsky e Reueven Feuerstein, são fornecidas as bases e os subsídios para se pensar, planejar, fazer e consolidar a práxis educativa no século XXI a ser considerado com todo o seu aparato tecnovirtualizado e veículos midiáticos de distribuição e consumo da informação e seus acessórios  a ditarem as regras para as formas de consumo e comportamentos relacionais diversos, com ênfase para o visual; padrões estéticos de consumo e conduta.  As novas formas culturais de interação a ocorrer em ambientes de relações sócio-virtuais, efêmeras e mutáveis, são consolidados na cultura da diversidade global e medeia nossa constituição psíquica e social.  Sem a devida interpretação dos estímulos ofertados, corremos o risco de construções humanas cada vez deficitárias, antiéticas e despolitizadas. Á escola e ao ensino compete promover a humanização digna de todos os seus atores, no entendimento de sua condição socio-historica e seu direito de ser presença no mundo e pronunciá-lo.

Nossa presença no mundo é inserção. Posição que extrapola o conceito de objeto e ganha conotação de sujeito de historia e, portanto, de presença autônoma, mutual e mutável, cônscia de si e de suas relações. A partir da consciência do existir não há mais como não assumir-se enquanto sujeito de direitos e deveres em construção contínua. Conscientes da nossa inconcretude nos sabemos seres condicionados, porém, não seres determinados.  Somos responsáveis por nossa constituição humanizante e a construção de nossa presença no mundo, que, embora se faça à partir das interações sociais, não pode ser originada em relações unilaterais. Se assim o for, abriremos mão de nossa liberdade, da responsabilidade ética, política e social e do próprio direito à liberdade de ser livre.

Enfim, ensinar e aprender envolve interrogações como a quem se destina? Para que? Como fazer? E sobe quais bases e valores? A ação de ensinar e aprender são constituídas de historicidade. Haja vista, que os sentidos de nossas ações, sonhos e objetivos, portanto, de comportamentos efetivos, configuram as relações contextuais de nossa existência em gestação e gestão constante. Daí a importância do pensar para intervir, pois no ato de informar/conhecer, a percepção clara e interpretativa e a apreensão do real e da realidade é fundante para a escolha de caminhos e métodos; de pedagogias que possam dar conta de atender as necessidades e as especificidades dos sujeitos humanos em processo relacional de formação e construção contínua.

A atualização constante do saber/fazer e ser docente pode, resumidamente, ser descrita como relações em que ensinar e aprender se configuram como processos imbricados, envolve a intenção e a reciprocidade, a participação ativa e efetiva de pares, de atores sociais distintos e diversos. Pressupõe o desafio do desconhecido, do diferente, do inusitado, do estranhamento, da novidade, da curiosidade, da imaginação, daquilo que instiga, angustia e permite a indagação. Assim como do que já é conhecido de forma ingênua, da experiência do senso comum ou do âmbito da formalidade.

Ao ensino de Arte ou a Arte-Educação compete a mediação de significados e de transcendência da compreensão dialética do ser presença no mundo na ambiência do tempo e espaço do qual as linguagens artísticas e suas formas de materialização (pictóricas, pictográficas, sinestésicas e sonoras) emergem. Sendo, portanto, portadoras de informações históricas sobre as relações sócio-afetivas e político-ideológicas de seu tempo. Necessitando assim, de construtores, de intérpretes autônomos e politizados que, a partir das leituras primeiras, aquelas originadas das relações e experiências com o mundo, possam, na complexidade das inter-relações entre os distintos universos culturais e seus modos de produção e meios de distribuição e recepção dos diferentes artefatos e objetos artísticos, ressignificar seus saberes primeiros na aquisição de novas formas de conexão, compreensão e aprendizagens. Estas a serem utilizadas em novos movimentos e em novas estratégias de decodificação, reinterpretação e re-elaboração transformadora de si, da vida e do mundo.

REFERENCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra S/A, 1987.
_____________. A Importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 22ª ed. São Paulo: Cortez, 1988.
_____________. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. 25ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção leitura).
 GOMES, C.M. A. Feuerstein e a construção mediada do conhecimento. Porto Alegre: Artmed, 2002.
MEIER, M. GARCIA, S. Mediação da aprendizagem: contribuições de Feuerstein e de Vygotysky.  6ª Ed. Curitiba: Ed. Venezuela, 2010. Ed. Do autor, 2007.
 VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6ª edição. – São Paulo: Martins Fontes, 1998. – (Psicologia e Pedagogia).
______________. A psicologia da Arte. Trad. BEZERRA, P. 1ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999
 ______________.  A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.